terça-feira, 31 de maio de 2011

cartas,

Esta carta não fora deixada ao acaso, pertence a ti caro leitor, que já a deflora inadvertidamente.
Não se pergunte antes de percorrer até a última linha sobre a importância devida a se considerar. Por hora peço apenas que leia, não te exijo mais nada de antemão, somente que prediga como num último suspiro um moribundo reclama um pedido.
Por advertência peço também que primeiro se acomode em lugar privado e certifique se de que não será perturbado.
Prometo ser breve, pois tenho os meus afazeres diários me impelindo a ser mais uma reles plebéia invisível no meu  enfadonho fado de sopitar sibilos na fábrica das instituições.
Afinal de contas, não é sempre que podemos escapar como quando naquele atol de céu escaldado e lua de impulsionar para o doce precipício. Não demora me arrisco a chegar lá à nado novamente, como da última vez. Lembra? Sei que estava comigo quando enfrentava aquelas ondas à mar aberto. Chegando quase de encontro às rochas milenares, ou aos cortantes corais da costa verde.Desta vez te juro, simplesmente me jogo e afundo. Não te contei que o oceano me desperta um sentimento demasiado profundo? Pois sim, ele exerce um magnetismo poderoso sobre mim, um chamado leviano, mas totalmente imperativo. Aí eu morro da vontade de entrar, de calmamente caminhar à dentro, enquanto os pés alcançam a areia firme, depois simplesmente me deixar levar no suave embalo do colo da minha rainha Iemanjá. Já tenho uma cena construída: à noite, a neblina, e toda a elasticidade de uma madrugada com um fim para as janelas da percepção. Portinholas dispostas em cadeia, como em tubos coronários, salgando em movimentos peristálticos para dentro de nós.
De nossas ilhas carentes da maior secura para a jus imensidão sem fim...
Do escasseado retorcido lombo esticado sobre nossas costelas se esgarçando precipitado no mais fundo poço fértil de reflexividade azul.
                                                          xxx

 E eu que buscava dissimular os meus mais ínfimos gestos já exaltados com o intuito de que você de nada desconfiasse. Eu que preferia mil vezes alimentar a dúvida e a ilusão, do que simplesmente vetar de cara a possibilidade de efetivação de uma mística velada só por mim.  Viver sempre no trajeto é minha sina, como nômade em busca de um oásis, como uma cigana tirando estas cartas e embaralhando às, jogando aleatórias ao acaso, na roda girando, bola de cristal, sem pretensa intenção.
Errante num caminho sem mapa de consultar, somente o salgado destino escorrendo por entre as juntas durante o percurso.
 No meio de uma madrugada fria senti seu hálito me esquentando o pé da orelha,olhei em volta e não te encontrei, imaginei que tivera saído para descobrir alguns gravetos que pudessem esquentar nossas labaredas internas, como languescidas línguas mordentes à procura de uma acides que a fermentasse desde à bílis à outras cavidades.
Sentia seus olhos acesos como duas sentinelas me espreitando a despeito atrás da nuca, eles me ascendiam e me iluminavam. Numa suposição de que estava tão perto e éramos puro incesto. Reconfortantes vistas grossas enquanto eu ainda conseguia sustentar tormentas.Você deveria saber que projetar realidades dispersas me eram extremamente necessárias sobretudo naqueles tempos idos de cegueira e insegurança. Não sabia que naqueles entreveros hostis me perdia a esmo? Pois a você desconhecia.
Ando a dispensar telefonemas, não ligo, tampouco calo, não atino. Nem mesmo o velho desdobrar do papel, ouvindo “Gracias a la vida” e tomando o bom e velho uísque com guaraná e algumas pedrinha de gelo, só algumas, "on the rocks". E  você que nem afeito ao malte anestésico, gostava mesmo era da amarga à carne, descendo tinhosa e ardente, de gole em gole, depois de bem afligida entre os dentes.
Não se engane, tudo de ti me importa, nobre leitor afoito. A partir do momento que pela retina adentrasse, por aquela mítica porta (portal astral), muito do que eu sempre quis já se firmara pela mágica dos tempos. Mas não posso me contentar só com isso, me foi intuído que nossos córregos escorregarão unidos, numa bifurcação à frente do pântano das almas. Toda a fortuna de comprometimento com a comunidade, saudoso memorialista, me foi permeada em outras passadas, em eras mais antigas ainda, e eram, disso não duvido. E durante aquela regressão feita na cadeira do psicanalista eu vi exatamente o momento em que você me estendeu a mão e me tocou pela primeira vez, foi tão firme e certeira sua pegada me trazendo de encontro a seu peito. Suas mãos fortes deslizavam seguras sobre minha espalda, seus dedos me arremetiam contra seu corpo, me tirando o fôlego e o já pouco arfante de vertigem de desfalecer. Num cru embate de totalidades unas que poderiam perecer juntas.
No tocante ao objetivo final, não te apresento nada, unicamente estas letras dispersas e a certeza de que ainda o surpreenderei de súbito.

                                                                                                                            outono de um ano febril




(Esta carta pertece à série "Pequena caixa de cedro", a qual esta sendo paulatinamente construída neste blog, para acessar a seqüencia,procure na barra lateral de apoio (marcadores)pelo título correspondente.)

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