quarta-feira, 23 de maio de 2012

Água doce luminosa


 Todo alento de água doce
em poço circular
emanando das profundezas da terra
pura fonte de desejos humanos
castos, inatos, instintivos
jorrando da fenda entre a rocha e a areia
vento lunar, lírio branco
moinho de pensamento
sedimento de pedrinhas no fundo
 fresco movimento natural margeado por verde
musgo e umidade
nascente de estrelas luminosas
que dissolvidas se reintegram à essência prima
nostalgia, deja vu
todas as significâncias em ciranda
girando num cósmico céu de brilhantes
guias de orvalho e safira
na noite do vale
assistida.

Fotografias mentais


 I
Mosaico de vitrais quebrados
galeria gigante e vazia
no alto vibra a insígnia
de dor e alegria
velas circundantes
Inebriados lugares
distancias cantantes
confessionário
sepulcros gelados
como sombras de uma
benta luz.

II
O por do sol no dorso de um centauro
cavalgando a esmo numa praia dourada de aurora
e brisa morna, cruzando as araras vermelhas e toda a passarada
um véu bordado em paetês de anil me cobrindo os olhos de rena
perfume de jasmin e pétalas de rosa com alfazema

III
Dissolvendo em água caudalosa
em selva úmida e fechada
e quando o medo e a corrente
invade
e a gente
se desfaz.

sábado, 19 de maio de 2012


pequeninos portais


Queria que essas linhas
chegassem como sopro e
pontilhassem o infinito
como passarelas para imensidão

queria que seu sentido girasse
e penetrasse em espiral
a consciência absoluta
num entendimento
harmônico
universal

queria que o cosmos dissolvesse
como celulose orgânica vegetal


formas cristalinas
refletores das multicores
de sais minerais
elementais


e o além etéreo
cometa de Íris
aceso
como um signo
frontal
                                      


                    Flávia Amaro

Postagem original: http://manufatura.blogspot.com.br/2012/05/queria-que-essas-linhas-chegassem-como.html


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Arte poética

*Imagem capitada e registrada por mim em maio de 2012- Captólio-MG.


Fitar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.

No dia ou no ano perceber um símbolo
dos dias de um homem e ainda de seus anos,
transformar o ultraje desses anos
em música, em rumor e em símbolo,

na morte ver o sonho, ver no ocaso
um triste ouro, tal é a poesia,
que é imortal e pobre. A poesia 
retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes pelas tardes certo rosto
contempla-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.



BORGES, Jorge Luis. O fazedor. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

quinta-feira, 17 de maio de 2012



“O poder simbólico é um poder de consagração ou de revelação,
um poder de consagrar ou de revelar coisas já existentes”.
(Pierre Bourdieu, 2004: 167)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Papel e caneta


Escolher meus interlocutores e a medida da exposição
não forçar entendimento, não forjar compreensão
cada um com sua porção de realidade
e sua capacidade de condensação (julgamento)
contando que  aceitar o tempo imensurável
que tudo protela e que tudo prevê,
ainda que requeira esmera
de apática cacofonia transversa em representação
é saída complexa e digna de contemplação
fixa e aciona, aperta míopes os olhos e vê
de relance, fonema, sentido
coesão de ritmo de timo acolhido
sinestésico arrepio e meditação
trampolim pra dentro
escorregando lentamente num túnel escuro
profundo, descolado e inerte
desenrolar de línguas de trapo
torcidas e contorcidas
por seus totens- tabu
de cera e de tinta
no papel de azul
branca e rasa
sina.

terça-feira, 15 de maio de 2012



I
Antes era tudo impressão
Ilusão da palavra, provimento
Agora tudo se solidifica
ao som da palavra, pavimento
PRIMEIRA ESTAÇÃO

ii
Depois aprender a coexistir
Conviva de lua
e deslocamento

III
\à MARgem do rio que corre e corta
transversal do tempo
pensando e trançando -  longos fios
de encantamento

Não, São Paulo não me cativou nesse ano. Para mim, privilégio não é estar onde “todo mundo está”, mas estar em um lugar onde se pode, num ...