segunda-feira, 20 de junho de 2011

Noturno






 

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?
 

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?
 

Que valem a conversa apenas murmurada, 
a erma ternura, os delicados adeuses?
 

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?
 

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.
 

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.
 

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas, 
sem compromissos de viver.
 

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.
 

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.
 

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!


                                       Cecília Meireles



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