sábado, 26 de dezembro de 2015

sobre a fuga e outras calamidades

Um dragão pousou no pomar
fome fronte a fogueira originária
um céu de estrelas assombrava a noite escura
feito feridas menores e luminescentes
de esquivas transcendentes
enquanto espelhos retroagem
muita estima

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

imagem acalentadora



Submersa em água cristalina
o sol adentra a água espectralmente
lentamente afundo
a tensão se ameniza
os sons se calam
minha consciência adormece
viro peixe ou estrela d’água


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

nosso dossel significado

Contingências também são forjadas
criamos coextensivamente todas as realidades dadas
e todo sentido está sujeito a ruir
em inevitáveis anomias

todo sentido é construído frente a falta de sentido
todo sentido é modelado frente ao excesso de sentido
nem caos, nem ordem- somente a pura instabilidade

minha consciência é anterior à sociedade
minha falsa consciência é adaptada à realidade socialmente e individualmente construída
e ela é variante- simplesmente oscila
está anestesiada pelas coerções sociais intersubjetivamente por mim processadas

a poesia tenta apreender um sorrateiro pensamento
ela aciona o eu não socializado
sua nomização é particular e não oficial
seu esforço é válido, no entando,
ela nunca consegue alcança-lo
e fica apenas com o rastro e o cheiro
com estalos passageiros
imagens desconexas
de um céu do uno- contemplativo
do nada

perfeito

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Não tenho nada a dizer,
Simplesmente prostro- me a seus pés em veneração
Sou o silêncio que sangra as heresias, sou sua pura intuição
Minha linguagem é natural
Falo sem precisar das mãos
Boca cerrada
Peito escancarado em giros estrelares
Cintilantes iluminações
Meus estalos nos móveis do seu lar habitado por tantos vagos vertiginosos
Sou  a súmula da vontade
Serenidade de verdade
Vem

Que nunca é tarde e toda hora é a entrega vindoura
Escrever é danação ou libertação?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Insight


          Pensando em relação a uma teodiceia segundo os termos de Peter Berger, me pergunto porque um atentado de cunho religioso como o de Paris repercute e causa mais consternação na opinião pública do que um atentado de cunho político econômico com implicações ambientais. Para além das questões da manipulação dos meios de comunicação que pretendem abafar a catástrofe de Mariana, talvez a questão metafísica envolvida na explicação desses acontecimentos seja uma chave de interpretação. De um lado nos perguntamos, que Deus é este que imputa a morte, o terror e o sofrimento, capaz de não só permitir, mas também legitimar que tais atrocidades acontecessem, e no outro nos perguntamos como chegamos a esse ponto e permitimos um desastre de tamanhas proporções ocasionado pela arbitrariedade humana?
           Se recorrermos a Giddens e suas formulações teóricas sobre a ideia da confiança e do risco perceberemos que inevitavelmente depositamos fichas simbólicas de confiança no outro, e consequentemente nas instituições. Nossa intrínseca condição humana nos atrela inexoravelmente à coletividade, dependemos dos outros para sobrevivermos e conduzirmos nossas vidas cotidianas. Na perspectiva de Giddens em função de nossa tradição cartesiana e de nosso respectivo conhecimento especializado precisamos uns dos outros para o funcionamento da organização social. Ou seja, pensando a partir desse ponto de vista, devemos admitir que não damos conta de tudo sozinhos, não somos autossuficientes, precisamos do outro e essa relação envolve uma latente angústia. Pois esta confiança está pautada com efeito pelas incertezas. Uma vez que nos perguntamos quem é o outro? E como depositar confiança nesse outro?
           A Samarco falhou, involuntariamente depositamos confiança na capacidade de ela gerir com eficácia e segurança o sistema de mineração. Confiar no homem e no seu aparato técnico- científico não é garantia de nada. O homem é falho e suas construções são falhas. No entanto, por outro lado, o Deus que estaria aí para reger com harmonia essas constelações, é o mesmo Deus que permitiu o atentado terrorista em Paris, ou qualquer outro atentado de um homem contra outro homem. A angústia que experimentamos é proveniente desse mar de incertezas, não encontramos meios de nos submetermos à vontade desse Deus demiurgo, tampouco podemos ter uma esperança mediada pela figura do homem e suas construções técnico-científicas. Sendo assim fica a indagação, onde repousa a plausibilidade das coisas do mundo?