quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O solo da guitarra chorosa
me transporta pro limite
quisto

preciso enxergar a marca d’água
na expressão do pequeno rio que brota
do desejo

os olhos de um sonho
são membranas transponíveis
de um recíproco
eterno retorno

a singela leveza
de um olhar
vertical num corpo horizontal

te chamo
com a música

como fostes entidade
passageiro na remota
viagem
âncora e razão

astronauta de metal
mitificado
foras sim e entre o não
talvez

te esperarei
como esperam os fracos diante
do instante em vão

suspirarei quando sopraste
ao longe
doente de mim
 auspícios
de virtude

e vontade

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

“(...) toda descoberta que verdadeiramente revela um novo aspecto do ser nasce num raio de intuição, antes de ser controlada e justificada discursivamente; mas na poesia o papel da razão intuitiva tornava-se absolutamente supremo. (...) Entramos aí no império noturno de uma atividade primordial da inteligência que, muito além dos conceitos de lógica, se exerce em ligação vital com a imaginação e a emoção.”   Jacques Maritain - L'Intuition créatrice dans l'art et dans la poésie, 1966

sábado, 10 de agosto de 2013


meus símbolos pairam

e comungam com os teus

 

quando insetos na noite alta

larvas anímicas transmutando-se em mariposas oníricas

uma estrela brilhante aflora na abóbada escura da noite profunda

quantos abismos ficam soltos como buracos negros?
 
Portais infernais do etéreo redutível

ao mais ínfimo e imperceptível torque secular

transgredindo morosamente a fome infame


 

Iniciativa

Implacável

liturgia

 

I

tenho o ímpeto de me atirar

pois só vertiginosa a mente gira

em ascensão espiral de pensamento

intuição de disparada que cria


II

Sinto na organicidade fluida da face

em expressão arraigada o rio que corre

pra dentro de mim
 

III

São águas invisíveis

de um calor mortal


 

I
Entre o sono e o sonho

hígida vigília

desperta  hipnotizada

com sentido de lembranças

em expansão

direção de atalaia

paciente

sabatina

 

II

Noções sustentadas por evidências empíricas

 pois há na imaginação forças de efetivação do real,

ainda que o real não seja compartilhado partindo de uma construção altamente pessoal

x

ANTES DE CUNHAR IMAGINAR!

IMAGINAR ANTES DE CRIVAR!

 

elasticamente flexíveis,

volta e trás recordações dispersas, pouco passíveis de descrição

mente –memória em comunhão


 

Hoje só quero sobreviver a mim mesma,

me ultrapassar - transportar

pra outra dimensão

a mente e

esquecer

contornar

conformação

Se todos vivêssemos no bruto estado de natureza

eu não seria uma flor ou uma gota de orvalho,

eu seria força corrente, maremoto ou redemoinho.


 

Escolher meus interlocutores e a medida da exposição

não forçar entendimento, não forjar compreensão

cada um com sua porção de realidade e sua capacidade de condensação

contando que  aceitar o tempo imensurável

que tudo

protela e tudo prevê,

ainda que requeira esmera

de apática cacofonia transversa em representação

é saída complexa e digna de contemplação

fixa e aciona, aperta míopes os olhos e vê

de relance, fonema, sentido

coesão de ritmo de timo acolhido

sinestésico arrepio e meditação

trampolim pra dentro

escorregando lentamente num túnel escuro

profundo, descolado e inerte

desenrolar de línguas de trapo

torcidas e contorcidas

por seus totens- tabu

de cera e de tinta

no papel de azul

caneta

e branca

e rasa

chance.

Energias circulam na mística imperceptível do acaso

dando ritmo às fecundas transmutações orgânicas

da estagnação o tempo da pedra

da fúria o mar contra a rocha

da umidade o tempo da terra

Escrevo para me redimir, me confrontar, me iludir. Escrevo para dar vazão a um substrato mental corrosivo que incita a loucura, escrevo para me livrar da dor, escrevo para contemplar o amor, a natureza e o que há de essencialmente puro e divino.

Meu processo de escrita é impreciso, oscila na perspectiva do fluxo de ideias, às vezes são como correntes aquáticas num oceano de possibilidades, ora frias, ora mornas, o caldo contorce-se na movimentação densa dos organismos primários. Peixes na lama que ganham formas e se debatem contra as rochas milenares. Sentidos ofuscados por membranas torpes, visão distorcida de fragmentos molhados. Quando salta, o peixe vira pássaro e ganha os ares, sente o ar e enfrenta a volta, via queda abrupta, suas nadadeiras não são asas e toda transmutação tem seu tempo.

As ideias me vêm num fluxo incessante que mal me permitem reconhecer a relevância precisa. Ato biografia é essencialmente o que mais me motiva a escrever, mas não sobre os feitos socialmente valorizados, o que me motiva sobre o ponto de vista literário, no sentido de ter o ensejo de construir algo, é uma espécie de autoanálise que vem acompanhada de uma simultânea auto sabotagem via auto exposição denegrida, excessivamente fragilizada, passional.

Sinto a necessidade de simplesmente tentar agir como se as mãos rápidas no teclado pudessem acompanhar o fluxo contínuo do pensamento- expurgo de um cérebro ativo. Salvo que a incorporação é o que fica. A verdade é que sinto uma constante interação de pensamentos meus e alheios capazes de me transmitir imagens e mensagens de conhecimento de dimensões paralelas, assunto delicado que demanda um acurado trato – barreira imaginária que tal como linha tênue é reversível e transponível. Admitir finalmente que nem tudo o que escrevo deve ser publicado, e que, além disso, agora consigo ter uma visão mais abrangente e pensar a poesia para além de sua origem na auto exumação do bem o do mal em mim, de algum sentimento contundente, do inerente processo de escolhas sem fim. Agora passo a lidar melhor com os impulsos, me contendo talvez, ou partindo de um ponto de vista mais maduro acerca do que é escrever e qual é minha verdadeira intenção. O fato é que esses anos de blog tem me servido para desmistificar a escrita e a interação entre o que escrevo e o que reverbera entre os meus convivas, admito que ainda me auto boicoto e que poderia soltar mais a mão e o coração.

 

Com destreza abrupta arrebatadora acertou firme o embolo estourando-o em mil pedacinhos flamejantes que se dispersaram por instantes à fio buscando o firmamento, um horizonte longínquo e indescritível, onde a única coisa que se avistava era a criatura andrógina-  cabeça de aquário, cultivo de peixe solitário, nadando num líquido amniótico repleto de pequeninas  e nutritivas formas geométricas.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013


Meu autêntico e romanesco despertar

me transporta por entre nuvens de incenso e brisa do mar

por estradas oníricas que levam ao querer

 
somos cúmplices jardineiros da aurora etérea

regamos nossas sementes com fluidas correntes da nascente intuitiva que forma o poço das ilusões - das urgências fictícias
 
do que o cosmos reitera

somos seres ainda pulsantes na atmosfera

pairando num plasma de dimensões encontradas

 

                                            o mito do mundo

                                           num minuto pra mim

 

                                                                                    sou a irreconhecível interposição

                                                                                     entre feixes de luzes

                                                                                      e córregos que escorrem

                                                                                           seivas ontológicas

maravilhas do inconsciente arcaico

sussurram sistemas de significação

 

                                                          arquétipos de sombras cintilantes

                                                           em arcos de passagem

 

nos espelhos do rio

a fronteira do fluir

 

                                                                    mistificação do incongruente

 

quando a luz ganhar contornos mais precisos

se lembrará instantaneamente da essência

recuperada

                                              cascatas de água cristalina

                                                      brotando de fendas luminosas

 

Talvez pudéssemos fazer tal como naquela noite em que voando baixo numa paralela dos sonhos, num horizonte longínquo como farejadores do perfume das flores- sobrevoamos numa panorâmica nostálgica de reconstituição visual um oco vale de ressonância ancestral entressachado por linhas cortantes, tal como navalhas hesitantes- antes do alcance do imensurável

o amor incitou minhas inquietações e suspendeu minha respiração até limites insuportáveis de vertigem

 
Quando os pássaros me transportarem em seu eterno revoar

quantas batidas de asas e do coração serão suficientes para encontrar

um senda na escuridão?

 

 quem merece e compreenderia o cultivo das flores invisíveis?

são sutis e simbólicas suas florescências

são lentos seus condões

 

a coragem consiste em deixar escoar-se

até que a chuva interna caia e o corpo na água se dissolva

no mesmo elemento fundamental, único e universal

sedimento do barro no fundo da alma

terreno fértil

 

terça-feira, 6 de agosto de 2013


Na galeria de luzes e sombras

reflexos, retrocessos e variações

espelho d’água,

poço de ilusão

força de ressonância

sentimento de distância

tão presente quanto um ente sobrenatural

voyeurismo fantasmagórico

preenchendo o vazio

com seus olhos iluminados na escuridão

domingo, 4 de agosto de 2013


 

sou a chama acesa

ardendo lenta e trepidante

num templo de anjos desfalecidos e gárgulas petrificados

mausoléu de espectros

projetando dimensões distorcidas

na tábula rasa

 

sou a sombra subjetiva que invade a sala

a sinergia sinistra que sussurra seu nome

sou a lua cheia num céu de estrelas

sou a ave rara de voo ligeiro

desenhada no tabuleiro

de cartas lançadas


 

Sou o fogo brando

 seu santuário

de sombras

 

calor seguro

sagrado

 

sonho de sentido

sacerdotisa e semente

chama do sol nascente


 

Personagem


 
Teu nome é quase indiferente

e nem teu rosto mais me inquieta.

A arte de amar é exactamente

a de se ser poeta.

 

Para pensar em ti, me basta

o próprio amor que por ti sinto:

és a ideia, serena e casta,

nutrida do enigma do instinto.

 

O lugar da tua presença

é um deserto, entre variedades:

mas nesse deserto é que pensa

o olhar de todas as saudades.

 

Meus sonhos viajam rumos tristes

e, no seu profundo universo,

tu, sem forma e sem nome, existes,

silêncio, obscuro, disperso.

 

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,

teu coração, tua existência,

tudo - o espaço evita e consome:

e eu só conheço a tua ausência.

 

Eu só conheço o que não vejo.

E, nesse abismo do meu sonho,

alheia a todo outro desejo,

me decomponho e recomponho.
 
 
                                         Cecília Meireles

 

sábado, 3 de agosto de 2013

Escrevo e minhas palavras soam alto uma a uma ao leitor embargado. Sombras levemente perceptíveis percorrem seu braço direito enquanto lê estas letras, pequenas centelhas cintilantes te rodeiam, vultos aleatórios vagueiam e evaporam-se facilmente a qualquer espanto, devaneios o incendeiam como um calor etéreo atingindo lentamente diferentes partes fragmentadas de seu corpo. Breves zumbidos confundem seus ouvidos, bem próximo a sua nuca sussurra com sua consciência uma voz alegórica, simultaneamente você pressente uma presença líquida envolvendo o ambiente e percorrendo os cômodos. Você experimenta a sensação de que não está só, chega à súbita certeza de que nós nunca estamos sozinhos e que não cabe ao acaso o delineamento do destino, e que quando o coração pulsa acelerado toda sutileza emerge dos paralelos convergentes, das dimensões aparentemente inexistentes para a maioria dos descrentes mortais que padecerão numa rotatividade sem fim. Eu quero expandir feito bolha de sabão e me fundir, com minhas frágeis membranas, explodir no vento da tarde. Eu quero me entregar ao ar que forte se movimenta e sopra longe daqui.

Rolling Stones-Wild Horses



"let's do some living after we die
Wild Horses, couldn't drag me away"

Três poemas de Herman Hesse


Sem descanso


Alma, temeroso pássaro,

A toda hora perguntas:

Quando virá repouso, quando virá paz,

Depois de tanta luta?

 

Ah, eu sei: mal chegam dias sossegados,

Uma nova saudade já transforma

Cada caro dia teu em um tormento.

 

E, mal oculta no abrigo,

Vais procurar novos dissabores

E cheia de impaciência incendeias

O espaço como a mais nova estrela.

                                                
 
 
Nova vivência
 
Mais uma vez vejo descer o véu,
E o íntimo torna-se estranho,
Novos espaços estrelares chamam,
A alma inibida vaga em sonho.
 
Em novas órbitas, mais uma vez,
Organiza-se em torno de mim o mundo
E eu me vejo puro mago,
Como criança, nele colocado.
 
Mas um tênue pressentimento
Me chega de outras vidas:
Estrelas morreram, estrelas nasceram,
E o espaço nunca esteve vazio.
 
A alma se curva e se levanta,
Respira no infinito,
Nova e mais bela se tece,
Com rasgados fios, a veste de Deus.
                                             
 
Confissão
Doce luz, a teus reflexos
Entrego-me docilmente;
Outros têm metas e desejos,
A mim me basta viver.
 
Tudo me parece alegoria
O que sempre meus sentidos comoveu,
O infinito e o uno,
Que sempre vivo senti.
 
Ler nessa escrita de imagens
Faz minha vida valer a pena,
Pois sei: o Eterno, e o Ser,
Dentro de mim, residem e permanecem.

 
                                                          Herman Hesse
 
 

 
 
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013


Minha espinha dorsal

                                      a folha em branco

 

todos meus segundos pra você

invisível vibração oscilante de pensamento

 

tatuagem de fogo

 

a cada palavra

                          a marca

 

 

da interpretação

 

 

e quando a luminosidade invade

e cega toda impulsividade

alguma reação que o valha

algum sinal de sentido

 

tremulando feito miragem

num deserto de ficção

num coração de ilusão

faz-se rogação.

 

 

 

 

 

 

 

me alimentei de francas luminescências

que arderam por dentro feito chamas multicores

etéreas evidencias me encobriram de vestígios remotos

soporosas veemências me inebriaram o espírito

desfaleci pálida feito pétala desvitalizada

contorcionismos da alma me arrebataram

 

corto rizomas nocivos

como quem ceifa de um campo minado

o fel dos covardes

 

da passionalidade se faz um peixe

da emoção a patologia



 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Oráculo visceral


Um corpo é consumido

a cada volta intermitente

na translação do dia

na rotação da terra

 

sentindo distancias à frio

e errâncias à flor da pele