terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cartas do poeta sobre a vida- Rainer Maria Rilke


Já há algum tempo tenho tomado por esse livro um apreço de contentamento, envolto em ares de motivação-inspiração num sentido oracular, talvez inclusive o situe  entre os favoritos deste ano. Por isso o ensejo de compartilhar algumas das citações de Rilke extraídas de cartas endereçadas geralmente à seus leitores.
Seguem algumas:

" É imprescindível uma única tarefa, urgente: unir-se em algum lugar à natureza, ao forte, ao ávido, ao iluminado, com prontidão incondicional e, num espírito inocente, trabalhar avante, seja no mais banal, no mais cotidiano. Cada vez que considerarmos algo com garra, com alegria, cada vez que olhamos para distâncias ainda mais inauguradas, transformamos não só esse momento e o seguinte, mas também o passado em nós, o tecemos em nossa existência, dissolvemos o corpo estranho da dor, cuja composição exata não conhecemos. Assim como não sabemos quanta pulsão de vida esse corpo estranho, uma vez dissolvido, transmite a nosso sangue." (p.61)

" É necessário viver a vida ao limite, não segundo os dias, mas segundo a profundidade. Não é preciso fazer o que vem depois, se alguém sente que tem mais participação no que vem ainda depois, no longuínquo, na mais remota distância. Pode-se sonhar enquanto outros salvam, se esses sonhos são mais reais para alguém do que a realidade e mais necessário que o pão. Numa palavra: é preciso tornar a mais extrema possibilidade que alguém traz em si o critério de sua vida, pois nossa vida é grande e acomoda tanto futuro quanto somos capazes de carregar." (p.67)

"No fundo, não creio que importa ser feliz no sentido em que as pessoas esperam ser felizes. Mas consigo entender plenamente essa felicidade árdua que consiste em despertamos forças com um trabalho resoluto, as quais começam a trabalhar, elas mesmas em nós". (p.76)

domingo, 21 de agosto de 2011

3


campo semeado
cânfora de azeite e cicuta
hámulo eriçado quando em abatedouro
sacrifício de palpitação e tempero
enlevos- alegorias da seca

trajetos com sol a pino
percursos com poeira alta
mandruvá de camada e cortiço
estribarias nas currutelas
verdes pastos e vagalumes
antenas de lambaris semi-vivos
bigodinhos a la Salvador Dalí
água fria

mesa de corte-mesa de morte





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Bruxaria zombeteira



 adornos inúteis
em dias pesados...

Abutre ensimesmado em vôo cáustico
Sobrevoando o círculo de fogo gotejante
 olhos biônicos em alcance letárgico
de insistência rapina
Gárgula forjado na pedra fria
Estanca!
(Reciprocidade)
....
 A partir de seus frígidos caprichos
Insisto em me guiar
me torno oferenda para altares remotos
para além dos ventos uivantes de ensurdecer
tênue linha de consciência expandida e loucura
mesa de sangue e herança escarlate
maldição!
Sacrifício!
ofereço
Pulsando vivo que é pra demonstrar coragem
...
vociferando blasfêmias e veredictos
vicinal-longitude
de amplitude reverberada
em abalos sonoros sensíveis
e silêncio de tumbas inertes

Peixe passional



Vaga em lagoa lodaçal
sinestesia de movimento
rendas e avencas molhadas
umidade de sombra clara
e alento


Vertigem em espelho d`água
lâmina afiada
língua de corte e folha
ou navalha



Água turva- água parada
abatedouro/berçário
corredeira - poço estanque
signatário alcançe


(sísmico abalo)


Peixe passional da fenda abissal
membrana de pupila sensível 
escama de aspereza 
vibração de clarão 
escuridão ou certeza

terça-feira, 16 de agosto de 2011


“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma”.

(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

domingo, 14 de agosto de 2011

cru.


Se for para vir que venha cru
que venha nu- descoberto
de peito aberto
à  cumplicidade
ao resgate
do embate
trivial
 viver

quinta-feira, 11 de agosto de 2011



Deturpas-me,
quando procuras e ocupa
rincão de imaginação
olhos de peixe passional
membranas de brilho
de ascender em
redes de fisgar 

Perturbas-me
Mastigação indelével
Saturação
Estopim de arrebate
Calor coronário
de exaltação

quarta-feira, 10 de agosto de 2011


 inspiração autêntica
             -
legitimação de impulso

anátema

                exorciza

coronário avulso
.............




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sândalo


Seus olhos abriram sendas
na  escuridão abissal
acendendo os sentidos
em faíscas de encantamento

sentinelas de raridade
umidade de jorrar das fendas
emotivas retinas em bailados cintilantes de reconhecer

calor do tato
 língua, saliva e suor
do seu umbigo-gema da terra a esmeralda
dos seus rijos de despertar fortalezas de içar
seus pés raízes de pertencer e firmar- sustentação de leveza
como dança tribal ancestral que treme de transe
que sua de sumo ao apertar entre as cochas- perdição
dos seus braços desfiladeiros de me atirar
do seu colo meu cais de arpoar
de adormecer no meu leito- seu peito
 e enfeitar seu pêlo com eriçar
seus cabelos cafuné de marés embaladas
algas marinhas num padedê mágico
de entrelaçar e ascender às constelações
comoção de contenção
ilusão de contentamento
as estrelas e o firmamento


semente de sândalo
ao pé do ouvido e sussurro


NÃO SER


Quem me dera voltar à inocência
Das coisas brutas, sãs, inanimadas,
Despir o vão orgulho, a incoerência:
- Mantos rotos de estátuas mutiladas!

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!...

?

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!...


Florbela Espanca 

ALVORECER


A noite empalidece. Alvorecer...
Ouve-se mais o gargalhar da fonte...
Sobre a cidade muda, o horizonte
É uma orquídea estranha a florescer.

Há andorinhas prontas a dizer
A missa d'alva, mal o sol desponte.
Gritos de galos soam monte em monte
Numa intensa alegria de viver.

Passos ao longe... um vulto que se esvai...
Em cada sombra Colombina trai...
Anda o silêncio em volta a q'rer falar...

E o luar que desmaia, macerado,
Lembra, pálido, tonto, esfarrapado,
Um Pierrot, todo branco, a soluçar...

Florbela Espanca

OUTONAL

Caem as folhas mortas sobre o lago;

Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...

Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...

Florbela Espanca


Estão disponíveis no domínio público uma série de obras completas.
Compartilho por hora o link de   CHARNECA EM FLOR  Florbela Espanca.

domingo, 7 de agosto de 2011

Imagem: meta ledz/ deviantart


Bruxa cega
ceifados humores...
presa em  grotões profundos,


sedimentados e cobertos por teias de aranhas,
seus esforços foram em vão, sua súplica não for sequer contestada
se perdeu na covardia pequena- da boca pequena- da falta de iniciativa

reclamo o atordoar das idéias distraídas, dos nós séquitos de nódoas ardentes
dos processos subseqüentes e falíveis – passivamente protelados, como quem mastiga a própria língua, como quem engana a própria sorte, como quem desmerece a poesia, como quem comete a heresia da escolha, como quem finge não ser sendo inevitável. Vicissitudes do incontestável rumor ancestral, que trouxe imagens e símbolos de um outro recorte de plano astral desde momentos remotos situados em confins- portinholas da memória.

Tenho a paciência e a compaixão do oceano-pretensão de espera
 pretensão de esferas complementares/
 de intragável cumplicidade aos olhos alheios

sua esquiva a envolve num casulo caótico de reverência postular e entrega a fatalidade
dos dias....

Pertinência devir
Desdobramentos morfológicos
Semântica da instância
Paralelos
............
Entre parâmetros fugidios
E percalços despercebidos
Bagatelas de insignificância
Recorte atemporal de melancolia
...................
Versos de açoite
Contatos privados
Dimensões encantadas em interação
...........................
Tudo que é sonho cativo no sono acordado
Embates de letras incertas que saltam da tela rasgando e se fazendo sentir
Dilacerados redutos de fuga e pertencimento...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos nas pontas das palavras. Minha linguagem treme de desejo." 


                                                   Roland Barthes

Ceifeira



Mas não, é abstrata, é uma ave
De som volteando no ar do ar,
E a alma canta sem entrave
Pois que o canto é que faz cantar

                              Fernando Pessoa

Cansa ser, sentir dói, pensar destruir.

Cansa ser, sentir dói, pensar destruir.
Alheia a nós, em nós e fora,
Rui a hora, e tudo nela rui.
Inutilmente a alma o chora.
De que serve ? O que é que tem que servir ?
Pálido esboço leve
Do sol de inverno sobre meu leito a sorrir...
Vago sussuro breve.
Das pequenas vozes com que a manhã acorda,
Da fútil promessa do dia,
Morta ao nascer, na 'sperança longínqua e absurda
Em que a alma se fia.

                                   Fernando Pessoa