segunda-feira, 20 de junho de 2011

É preciso não esquecer nada


 
É preciso não esquecer nada: 
nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes 
nem a oração de cada instante. 
 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta 
nem o céu de sempre. 
 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto, 
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 
 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, 
a idéia de recompensa e de glória. 
 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos, 
vigiados pelos próprios olhos 
severos conosco, pois o resto não nos pertence. 
 

                                      Cecília Meireles, 1962

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