quarta-feira, 25 de maio de 2011

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Figura mitológica: Centauro

Visto de cima, do alto de um rochedo inerte fincado fronte ao vale úmido há milênios, sua latitude avançava equadores, destilava amadeirados tons e cobria de limo agridoce toda a superfície estratosférica perene.

Gigante em extensão, o mitológico centauro do sertão, era metade homem, metade besta. Pura força e rudeza tomadas de assalto num corpo e mente vigoroso, maciço em bronze.

Trombetas e trombones feitos de seus chifres emanavam cânticos ancestrais e oscilavam em redemoinhos aspirais teratológicas alegorias. Tautológicas evidências.

Torcido  trapézio de silhueta curvilínea saída da costela de sua própria natureza. Pressiona sua anca, veste sua armadura, chama o batuque, aquece os tambores, gira na cadência das horas, porque os ruídos rítmicos e selvagens da fusão das eras não surtiam mais o devido efeito.

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Mas sempre havia aquela cabaninha erma recostada por folhagens tropicais, na Bahia das almas. Tão longe, mas não vaga, onde pirilampos e vaga lumes a rodeavam em festa ao luar. E ascendiam seus folguedos a partir de faíscas de aquecer.

No balanço suave das folhas, enroscado em cipó, pendia o pendente de gera quente, muco, retilíneo. Homem-menino, da beira do rio, ancorado em sua barca, ante a ribanceira. Só desce lama e caos daí já diria sua rebenta entusiasta, então pacientemente macerado o barro, faz surgir seu fado com formas ventosas, capazes de sufocá-lo em tentáculos afãs.

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Homem-menino e velho ermitão cujas tranças de sua  barba ruiva sustentavam hábitos arraigados numa virtuosidade impecável às vistas dos reles mortais.

Pela manhã saia frívolo e frugal em busca de frutas da estação. Colhia-as uma a uma, com todo o cuidado necessário para que não mofassem junto às outras na amarração. Secava e adornava seu arranjo, de acordo com o ritual pagão criado por ele mesmo, em vislumbramento. Delimitando a circunferência com cascalhos ateava um fogo aceso rusticamente com pedaço de pau e pedaço de pedra. Sal e saga daquela terra.

Afasta-se, recuso, porém não teimava em desbravar refúgios, que com vara curta atiçava à distância. Em  vãos vôos válidos. Rasos de profundidade rasgada à carne crua.

E por ser só, já se sabia de antemão que era não mais que uma opção. Como conviver lá em baixo, em meio às angústias mundanas? Como compartilhar da dor impunemente? Como não se sentir responsável? Como não se sentir impotente?

Lá do alto ele estava mais perto do céu e as cores de baixo não passavam de meros borrões desfocados. Talvez opacos, talvez inúteis.

Sendo assim não é qualquer pieguice que sobressai aos olhos.
Sentado a observar em suspensão sentia medo, dissabor, a boca seca, a mão fria e uma fome devassadora.

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