terça-feira, 31 de maio de 2011

cartas,

Esta carta não fora deixada ao acaso, pertence a ti caro leitor, que já a deflora inadvertidamente.
Não se pergunte antes de percorrer até a última linha sobre a importância devida a se considerar. Por hora peço apenas que leia, não te exijo mais nada de antemão, somente que prediga como num último suspiro um moribundo reclama um pedido.
Por advertência peço também que primeiro se acomode em lugar privado e certifique se de que não será perturbado.
Prometo ser breve, pois tenho os meus afazeres diários me impelindo a ser mais uma reles plebéia invisível no meu  enfadonho fado de sopitar sibilos na fábrica das instituições.
Afinal de contas, não é sempre que podemos escapar como quando naquele atol de céu escaldado e lua de impulsionar para o doce precipício. Não demora me arrisco a chegar lá à nado novamente, como da última vez. Lembra? Sei que estava comigo quando enfrentava aquelas ondas à mar aberto. Chegando quase de encontro às rochas milenares, ou aos cortantes corais da costa verde.Desta vez te juro, simplesmente me jogo e afundo. Não te contei que o oceano me desperta um sentimento demasiado profundo? Pois sim, ele exerce um magnetismo poderoso sobre mim, um chamado leviano, mas totalmente imperativo. Aí eu morro da vontade de entrar, de calmamente caminhar à dentro, enquanto os pés alcançam a areia firme, depois simplesmente me deixar levar no suave embalo do colo da minha rainha Iemanjá. Já tenho uma cena construída: à noite, a neblina, e toda a elasticidade de uma madrugada com um fim para as janelas da percepção. Portinholas dispostas em cadeia, como em tubos coronários, salgando em movimentos peristálticos para dentro de nós.
De nossas ilhas carentes da maior secura para a jus imensidão sem fim...
Do escasseado retorcido lombo esticado sobre nossas costelas se esgarçando precipitado no mais fundo poço fértil de reflexividade azul.
                                                          xxx

 E eu que buscava dissimular os meus mais ínfimos gestos já exaltados com o intuito de que você de nada desconfiasse. Eu que preferia mil vezes alimentar a dúvida e a ilusão, do que simplesmente vetar de cara a possibilidade de efetivação de uma mística velada só por mim.  Viver sempre no trajeto é minha sina, como nômade em busca de um oásis, como uma cigana tirando estas cartas e embaralhando às, jogando aleatórias ao acaso, na roda girando, bola de cristal, sem pretensa intenção.
Errante num caminho sem mapa de consultar, somente o salgado destino escorrendo por entre as juntas durante o percurso.
 No meio de uma madrugada fria senti seu hálito me esquentando o pé da orelha,olhei em volta e não te encontrei, imaginei que tivera saído para descobrir alguns gravetos que pudessem esquentar nossas labaredas internas, como languescidas línguas mordentes à procura de uma acides que a fermentasse desde à bílis à outras cavidades.
Sentia seus olhos acesos como duas sentinelas me espreitando a despeito atrás da nuca, eles me ascendiam e me iluminavam. Numa suposição de que estava tão perto e éramos puro incesto. Reconfortantes vistas grossas enquanto eu ainda conseguia sustentar tormentas.Você deveria saber que projetar realidades dispersas me eram extremamente necessárias sobretudo naqueles tempos idos de cegueira e insegurança. Não sabia que naqueles entreveros hostis me perdia a esmo? Pois a você desconhecia.
Ando a dispensar telefonemas, não ligo, tampouco calo, não atino. Nem mesmo o velho desdobrar do papel, ouvindo “Gracias a la vida” e tomando o bom e velho uísque com guaraná e algumas pedrinha de gelo, só algumas, "on the rocks". E  você que nem afeito ao malte anestésico, gostava mesmo era da amarga à carne, descendo tinhosa e ardente, de gole em gole, depois de bem afligida entre os dentes.
Não se engane, tudo de ti me importa, nobre leitor afoito. A partir do momento que pela retina adentrasse, por aquela mítica porta (portal astral), muito do que eu sempre quis já se firmara pela mágica dos tempos. Mas não posso me contentar só com isso, me foi intuído que nossos córregos escorregarão unidos, numa bifurcação à frente do pântano das almas. Toda a fortuna de comprometimento com a comunidade, saudoso memorialista, me foi permeada em outras passadas, em eras mais antigas ainda, e eram, disso não duvido. E durante aquela regressão feita na cadeira do psicanalista eu vi exatamente o momento em que você me estendeu a mão e me tocou pela primeira vez, foi tão firme e certeira sua pegada me trazendo de encontro a seu peito. Suas mãos fortes deslizavam seguras sobre minha espalda, seus dedos me arremetiam contra seu corpo, me tirando o fôlego e o já pouco arfante de vertigem de desfalecer. Num cru embate de totalidades unas que poderiam perecer juntas.
No tocante ao objetivo final, não te apresento nada, unicamente estas letras dispersas e a certeza de que ainda o surpreenderei de súbito.

                                                                                                                            outono de um ano febril




(Esta carta pertece à série "Pequena caixa de cedro", a qual esta sendo paulatinamente construída neste blog, para acessar a seqüencia,procure na barra lateral de apoio (marcadores)pelo título correspondente.)

poesia


Você não escolhe a poesia, a poesia te escolhe!
Consome aturdida,
desliza a caneta,
Rabisca,
Arrisca,
Atiça.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

campanhia



Hoje senti o sangue coagular nas veias
como nos tempos de criança investida
com frio na barriga quando tocava,
a campanhia e corria.

Quero

Esta é uma das músicas que eu mais amo no mundo.
Um canto de ninar....


Quero ver o sol atrás do muro
Quero um refúgio que seja seguro
Uma nuvem branca sem pó, nem
fumaça
Quero um mundo feito sem porta ou
vidraça
Quero uma estrada que leve à verdade
Quero a floresta em lugar da cidade
Uma estrela pura de ar respirável
Quero um lago limpo de água potável

Quero voar de mãos dadas com você
Ganhar o espaço em bolhas de sabão
Escorregar pelas cachoeiras
Pintar o mundo de arco-íris

Quero rodar nas asas do girassol
Fazer cristais com gotas de orvalho
Cobrir de flores campos de aço
Beijar de leve a face da lua

Composição: Thomas Roth






"O Boi da paciência"

Noite dos limites e das esquinas nos ombros
noite por de mais aguentada com filosofia a mais
que faz o boi da paciência aqui?
que fazemos nós aqui?
este espectáculo que não vem anunciado
todos os dias cumprido com as leis do diabo
todos os dias metido pelos olhos adentro
numa evidência que nos cega
até quando?
Era tempo de começar a fazer qualquer coisa
os meus nervos estão presos na encruzilhada
e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante
e a minha vida não é mais que um teorema
por demais sabido!
Na pobreza do meu caderno
como inscrever este céu que suspeito
como amortecer um pouco a vertigem desta órbita
e todo o entusiasmo destas mãos de universo
cuja carícia é um deslizarr de estrelas?
Há uma casa que me espera
para uma festa de irmãos
há toda esta noite a negar que me esperam
e estes rostos de insónia
e o martelar opaco num muro de papel
e o arranhar persistente duma pena implacável
e a surpresa subornada pela rotina
e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
e o marcar passo à frente deste muro
e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
até quando? até quando?
Teoricamente livre para navegar entre estrelas
minha vida tem limites assassinos
Supliquei aos meus companheiros.Mas fuzilem-me!
Inventei um deus só para que me matasse
Muralhei-me de amor
e o amor desabrigou-me
Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
colori mitos e distribuí-me em segredo
e ao fim ao cabo
recomeçar
Mas estou cansado de recomeçar!
Quereria gritar:Dêem árvores para um novo
recomeço!
Aproximem-me a natureza até que a cheire!
Desertem-me este quarto onde me perco!
Deixem-me livre por um momento em qualquer parte
para uma meditação mais natural e fecunda
que me limpe o sangue!
Recomeçar!
Mas originalmente com uma nova respiração
que me limpe o sangue deste polvo de detritos
que eu sinta os pulmões com duas velas pandas
e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
em nome do sofrimento e da felicidade
em nome dos animais e dos utensílios criadores
em nome de todas as vidas sacrificadas
em nome dos sonhos
em nome das colheitas em nome das raízes
em nome dos países em nome das crianças
em nome da paz
que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele
Mas o homenzinho diário recomeça
no seu giro de desencontros
A fadiga substituiu-lhe o coração
As cores da inércia giram-lhe nos olhos
Um quarto de aluguer
Como perservar este amor
ostentando-o na sombra
Somos colegas forçados
Os mais simples são os melhores
nos seus limites conservam a humanidade
Mas este sedento lúcido e implacável
familiar do absurdo que o envolve
como uma vida de relógio a funcionar
e um mapa da terra com rios verdadeiros
correndo-lhe na cabeça
como poderá suportar viver na contenção total
na recusa permanente a este absurdo vivo?
Ó boi da paciência que fazes tu aqui?
Quis tornar-te amável ser teu familiar
fabriquei projectos com teus cornos
lambi o teu focinho acariciei-te em vão
A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
As constelações são mais rápidas nos céus
a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo
Lá fora os homens caminham realmente
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido!
Ó boi da paciência sê meu amigo!

de Viagem através duma Nebulosa


Antônio Ramos Rosa, 1960

domingo, 29 de maio de 2011

Pequena caixa de cedro


Em mais uma de suas trôpegas andanças por corredores empoeirados à procura de livros que a valham em uma biblioteca pública do centro da cidade, Morgana não esperava encontrar grandes novidades que já não tivesse lido ou que já não tivesse por ventura corrido a retina em desaviso. Mas pouco importava o transtorno de sair logo cedo pela manhã de seu casulo, tomar um café frio de ontem e ligar o motor do carro ainda na garagem pra fazer roncar forte e acordar já cedo a vizinhança hostil.
 A apatia generalizada por tudo que beira o espetáculo a inclinava a procurar obstinada por alguma obra rara que a prendesse a atenção. A ela não agradava a expressão pretensiosa do tipo “não li e não gostei”, achava que tudo poderia ser precioso, bastava o ponto de vista empregado, a sua própria leitura e interpretação desencadeada é que a ela interessava. Ansiava pelo alcance de qualquer passagem que a transportasse para uma dimensão imaginada. Acreditava piamente que o maior dos tesouros poderia estar lá, mesmo que bolorento ou entregue às traças, sabia que em alguma prateleira se escondia a preciosidade que tanto buscava.
De tanto procurar e andar a esmo se deparou com uma pequena caixa não etiquetada, posicionada fronte a coleção “Diamantes de Saber”, já naquelas prateleiras pouco acessadas e quase abandonas à própria sorte. Se perguntava se estava esquecida, deixada ao acaso? De quem pertencia?
Muitas dúvidas a fizeram refletir sobre o destino merecido de tal objeto, cogitou a possibilidade de entregar aos “perdidos e achados”, mas depois de uma breve espiada resolveu levar o artefato para a casa, para analisar com mais atenção. Quem sabe ali não encontrasse algum indício que remetesse ao verdadeiro proprietário.
Quando abriu viu que se tratava de um significativo arsenal de cartas e outras tantas recordações de amor. Aquele sim era um material diferente, de autores anônimos até então. Valia a pena a indiscrição de explorar?
Morgana não titubeou e destampou a caixa, atiçada por uma curiosidade que a tomava de sobressalto. E ia lendo-as uma a uma sem hesitação.

                                    Segue em outro momento.........



Manga rosa



Tomada por sorte me reconstituo
sou toda polpa de sabor álacre maduro
ostento meus horizontes longínquos
da mais alta morada – escala de cônscios

Daqui me arregaço do topo de árvore frondosa
fronte cópula de vendavais certeiros
que me movem em todas as direções
 onde avisto o mar azul  e madureço

Estou arraigada em terreno profícuo
cravada no sangue e sêmen de terra vermelha
pelo chão batido, por tantos chãos batidos
nossas estradas de percorrer

Hoje sou pura
malemolência de manga- rosa
içada ao latente estímulo
do calor dos trópicos
meus férteis domínios.

Cavalo alado




Oh! Grande senhor das horas do tempo imaculável,
por todas as voltas que essa esfera dá,
em torno de si e em torno do sol, te rogo:

me apresente algo que paire para além dos círculos de um girassol
que não seja pressão de cachoeira em queda livre
arvorecer em horizontes de esticar a vista
planaltos e planícies douradas
ou brisa de campo rosado.

Tenho anéis de cerrado
cercando-me.


Ah! Que blasfêmia voz digo
portentosa alegria só se encontra no entrevo
do desfiladeiro de força centrípeta

nem lá, nem cá

 na travessia...
pontilhão de arruaça
 tênue linha.

Enquanto a  terra gira à pina...


Vem logo,
vem me buscar
cavalo alado dos dias,
por aqui o vento venta apressado
uivando e chamando toda a matilha

Aqui nada se esvai ou dilui
à total revelia

Toma de pulso certeiro
sua vida, seu tino
que o mais ao passo de trotes
é o mesmo destino console acolhido

Pra ganhar imensidão de céu azul!
É preciso arriscar,
alcançar a fronteira
daquele rincão encantado
de soalho molhado fecundo
ante a ribanceira.









sábado, 28 de maio de 2011

No tocante a um instante fugidio...


sopra me ouvido o nome, sempre assim, como pensamento forte, como certeza inabalável, como sutis sinais rituais, que de tempos em tempos me movem, dizer que são guias me tiram o mérito? Fruto da minha imaginação? Tormenta, confusão? Ilustração? Encantamento? Hilda Hist queria ler-te hoje, sabia de ti desde a noite passada no convento das freiras enclausuradas, cujos pesados hábitos me habiavam por reclusa e repressão. Não sabia que por debaixo destas vestes se encontrava mestiça de camaradagem e harmonia, por de fronte toda sorte de sortilégios, por detrás garras de leoparda estanque. Nada disso me afetaria entre partes, nenhuma sequencia de azulejos adornados, nenhuma água morna, nada de morno jamais, gosto das extremidades, do quente - fervor, do frio enevoante e estilhaçado. Dentes cravados esfera por esfera, marcando fundas depressões na pele, pigmento, desa(pimentado) pigmaleão. Desavergonhada história sem pé nem cabeça, debaixo da mesa em meia estação.

...



Não sei como explicar bem, nem porque cargas dágua, mas o fato é que destinei este blog para dedilhar escritos que brotam espontaneamente, não conscientes.  Este é um espaço reservado  para o fluir desgovernado, caudaloso, como “limpeza de chaminé” do Drº Breur, (personagem de um dos últimos Best-seller aos quais me rendi e li). Não quero aqui tecer considerações categóricas, tampouco elaboradas. Quando escrevo é somente um deságüe letárgico necessário. Desencadeamento de pensamentos confusos. Auto-boicote, pode ser?

Me intimida os grandes temas numa poesia, como bradar a própria sorte sem rumos nem cortes? Queria mesmo era o pé do ouvido, ou ao mesmo pequenos ruídos diretos. Intimidade, particularidade.
Uma bóia para me içar, não uma âncora para submergir.

Baladas de uma outra terra, aliadas




Baladas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas ainda aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...
Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...

E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas e as estrelas
São delas... Ei-las alheadas...

E sao fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas... Toadas afastadas, irreais, de baladas... Ais...



                                                   Fernando Pessoa

Às vezes entre a tormenta



Às vezes entre a tormenta,
quando já umedeceu,
raia uma nesga no céu,
com que a alma se alimenta.
E às vezes entre o torpor
que não é tormenta da alma,
raia uma espécie de calma
que não conhece o langor.
E, quer num quer noutro caso,
como o mal feito está feito,
restam os versos que deito,
vinho no copo do acaso.
Porque verdadeiramente
sentir é tão complicado
que só andando enganado
é que se crê que se sente.
Sofremos? Os versos pecam.
Mentimos? Os versos falham.
E tudo é chuvas que orvalham
folhas caídas que secam.

 
Fernando Pessoa

Como uma voz de fonte que cessasse



Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), p'ra além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
P'ra o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...


                                               Fernando Pessoa

Por entre os vãos

Por entre vãos passeios,
venta a brisa suave


através das tantas portinholas que se abrem


pelas ladeiras de ladrilhos gastos


por tanto chão batido

 refúgios por onde a água passa


um conforto, 
 corre largo em mim minhas Minas.


Imagens captadas por mim em janeiro de 2009 na cidade de Tiradentes-MG.
Equipamento utilizado: Câmera Cyber Shot DSC-W270
Tratamento: nenhum


Barata tonta desbaratina,


Quem aqui não conhece a estória da Dona Baratinha, aquela que procurava um pretendente, numa idéia romântica obstinada de príncipe encantado contado pela vidente. Desculpem-me leitores, peço aqui já tão cedo um parêntesis, nesta estória os irmãos Grim foram julgados e condenados culpados. Mas espere um pouco, o que os irmãos Grim têm haver com a estória da Dona Baratinha que certamente foi escrita por outro autor, que não eles? É que neste conto se misturam todos os elementos objetivos e subjetivos, bem como não há tempo definido: passado, presente, futuro; ou movimento extrínseco – intrínseco.

Neste conto a Dona Baratinha não tem exatamente dinheiro na caixinha, não é este o enfoque em questão. E sim sua busca frustrada por explicação. Uma baratinha metafísica que queria acreditar nos acasos forjados, na animação dos astros, no sopro dos oceanos em desarranjo oscilando em marés. Uma baratinha que queria entender os porquês de tamanha confluência de idéias conexas. Uma baratinha que não pensava como outras baratinhas, mas que procurava inquietante um ser qualquer que compartilhasse de suas errâncias. Uma baratinha completamente desbaratinada brincando de cobra cega e dando cabeçadas a esmo. Uma verdadeira e com toda a expressão da palavra: “Barata tonta”.

Uma baratinha tonta rodada no jogo da cobra cega, se jogava à valentia dia após dia. Uma hora a baratinha aprende que não se atira ao precipício assim tão esbaforida, eufórica por adrenalina. Percebe que é preciso tatear e andar com mais cuidado, sobretudo sob terreno melífluo gomoso de árvore estrondosa, que não deveria se atrever a roubar o mel alheio assim tão decidida.

(Formou-se um novelo gigantesco de exaltadas formas descendo em disparada ribanceira abaixo os fios e as tessituras, o diverso impreciso... Avisei de antemão que se tratava de um texto non sense, patafísico).

Então, sempre que encontrava um suposto candidato espreitava, em seguida pedia para que ele demonstrasse como seria seu grunhido, fosse ele de que espécie fosse. Em sua saga infindável, topou com algumas figuras pouco confiáveis que a fizeram perder a fé. Figuras humanas que transpassavam sua parca condição efêmera invertebrada de carapaça com pouca quitina. Ela não era tão casca grossa assim. Humanos apegados à seus valores mesquinhos, confusos, auto-valorativos eram implacáveis no massacre.

O primeiro ser acalorado que encontrou depois de longa sina foi um touro bravo temeroso frente ao rubro provar de suas retinas. Um pouco receosa pediu então que ele desse um sinal, que demonstrasse que barulho fazia ao dormir. Daí ele mugiu estrepitoso sem se fazer entender. Ela o dispensou mesmo sem intenção, somente por pura hesitação.

O segundo que encontrou foi um burro falante que mais parecia um centauro mitológico trajando um manto gris metal, quase como uma armadura medieval. Na defensiva ele se apresentava altivo. Esquivando-se às investidas de Dona Baratinha, já toda amolecida frente o aurífice.  Qual é seu ruído ao dormir venusto burro? Ele disparou prolixo seu arisco trato. Dona Baratinha relutante partiu para o próximo postulante.

Foi quando topou com o elefante onipresente, sua suntuosidade a assustava sem precedentes. Dessa vez foi Dona Baratinha quem debandou em disparada, não conseguia encarar tamanha empreitada.

Mas de repente, quando já desanimada, eis que encontra sua cara rara, um grilo destemido e impetuoso, que até a ti transtornava. Mesmo ressaltada te  tirou do tino. Ah! Indelicado saltitante, porque me tomas em rompante? Exclama a baratinha tonta, suplicando: _ Elucida!

Por tudo isso os irmãos Grim foram tachados poltrões, simplesmente por destituir da interpretação qualquer escape ao congraçamento romântico que tende a achar que uma estória assim não tem graça, que beira à desgraça de um não final feliz.

Mais quem aqui está pensando em fim?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Operários - Tarsila do Amaral, 1933


"Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós"


Paulo Leminski

Aforismo

CULTURA                         COTIDIANO
CULTIVA             ou          CULTIVA
COTIDIANO                       CULTURA

Que importa?...




Eu era a desdenhosa, a indiferente, 
Nunca sentira em mim o coração 
Bater em violência de paixão, 
Como bate no peito à outra gente.



Agora, olhas-me tu altivamente, 
Sem sombra de desejo ou de emoção, 
Enquanto as asas loiras da ilusão 
Abrem dentro de mim ao sol nascente.



Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte; 
Como nascida em carinhoso monte, 
Toda ela é riso e é frescura e graça!



Nela refresca a boca um só instante... 
Que importa?... Se o cansado viandante 
Bebe em todas as fontes... quando passa?...



                         Florbela Espanca

                                    

“Sou feliz e trago as provas
Nos meus olhos molhados
E vejo a vida tão diferente
Eu já posso entender
A inocência do prazer"

Cazuza



quinta-feira, 26 de maio de 2011

À Maga,

Cara Maga Patalógica, hoje sai a sua procura às 15:30 da tarde, a casa estava em obras, os tique taques intermitentes não cessavam a desatenção.
A cidade também estava em construção e/ou reforma, por onde se olhava era possível reconhecer operários carregados de exaltação lazeira.
Procurei-te nas cercanias por onde não jorravam prédicas, olhei em volta da estação das horas. Nos recantos amendoados pelo sorgo podre, também próximo àquele campo de ervas daninhas, cerquei-te à margem e à espreita.
 Constatado o vão protelar, me sentei à beira do rosário das almas, atinando os sentidos, alcançando todos os domínios possíveis da afetação.
Refleti sobre a questão de gêneros, que me cansam logo de cara, não gosto dessa discussão, não quero partir desse pressuposto sexista. Mas porque não? Amazonas guiando sua máquina carapaça extensão metafórica da carruagem de Adão. Barro amassado no cerrado. Ganhando velocidades, bruscas paragens, ouvindo Jimi Hendrix no talo, buscando amplidões, aptidões, refúgios, oásis. Sozinha em ermos rincões, onde alonga-se o olhar, porque é disso que precisamos. Chegar num lugar qualquer onde se possa ouvir simplesmente o barulho do vento, os pássaros em revoada, a terra vermelha crua em seu lagamar pulsar borbolhas, o suave tilintar do prado movediço para dentro da gente, nos engulindo seco à duros nacos de flanco em flanco.
(Floresta artificial de dissabores ácidos, crustáceos fervilhando numa panela sem vela.)
Ígneo predicado de todos os dias, pela manhã e pela noite servia à contragosto?
Dúbios são seus turnos desalentos, soturnos por impresisão.
Mas da saga intuição não me esquivo cara Maga, pode ser por falta de aviso, por insistência nefasta ou por persuasão.
Ainda te espio.

MAGA


Ayer por la noche conocí a una mujer chistosa y omnipresente 
 se llamaba MAGA, sin mala intención 

o casi ninguno aliento

su caliente sangría
de deslumbramiento.
Hacía desde el primer punto

la celebración

rincón,

alquería
mi casa
casilla

un juego

como la vida

rayuelita.


"Con la Maga hablábamos de patafisica hasta cansarnos, porque a ella también le ocurría (y nuestro encuentro era eso, y tantas cosas oscuras como el fósforo) caer de continuo en las excepciones, verse metida en casillas que no eran las de la gente (...)"  Julio Cortázar



quarta-feira, 25 de maio de 2011

Dorsal calafrio


Ouço sinos que reverberam em transe
Cultivo cânticos de outras eras
Gera sem atrito labaredas
E me incendeia em cândidas palavras

Oh!lume incólume despenhadeiro,
Olho-te com toda a reverência merecida
Ataco mesmo sem alma, sangue, suor e saliva*
queda livre

*(organicidades necessárias em alguns domínios
arbitrários talvez por esmorecer a  lira )

Fito-te com olhos humanos faiscantes e inacabados
Perenes, trêfegos, compulsivos

Balado ouvido
Finda?
Tome tino!

Iguaria exótica,
peixe abissal,
meu dorsal calafrio.



xxx

Figura mitológica: Centauro

Visto de cima, do alto de um rochedo inerte fincado fronte ao vale úmido há milênios, sua latitude avançava equadores, destilava amadeirados tons e cobria de limo agridoce toda a superfície estratosférica perene.

Gigante em extensão, o mitológico centauro do sertão, era metade homem, metade besta. Pura força e rudeza tomadas de assalto num corpo e mente vigoroso, maciço em bronze.

Trombetas e trombones feitos de seus chifres emanavam cânticos ancestrais e oscilavam em redemoinhos aspirais teratológicas alegorias. Tautológicas evidências.

Torcido  trapézio de silhueta curvilínea saída da costela de sua própria natureza. Pressiona sua anca, veste sua armadura, chama o batuque, aquece os tambores, gira na cadência das horas, porque os ruídos rítmicos e selvagens da fusão das eras não surtiam mais o devido efeito.

xx

Mas sempre havia aquela cabaninha erma recostada por folhagens tropicais, na Bahia das almas. Tão longe, mas não vaga, onde pirilampos e vaga lumes a rodeavam em festa ao luar. E ascendiam seus folguedos a partir de faíscas de aquecer.

No balanço suave das folhas, enroscado em cipó, pendia o pendente de gera quente, muco, retilíneo. Homem-menino, da beira do rio, ancorado em sua barca, ante a ribanceira. Só desce lama e caos daí já diria sua rebenta entusiasta, então pacientemente macerado o barro, faz surgir seu fado com formas ventosas, capazes de sufocá-lo em tentáculos afãs.

x

Homem-menino e velho ermitão cujas tranças de sua  barba ruiva sustentavam hábitos arraigados numa virtuosidade impecável às vistas dos reles mortais.

Pela manhã saia frívolo e frugal em busca de frutas da estação. Colhia-as uma a uma, com todo o cuidado necessário para que não mofassem junto às outras na amarração. Secava e adornava seu arranjo, de acordo com o ritual pagão criado por ele mesmo, em vislumbramento. Delimitando a circunferência com cascalhos ateava um fogo aceso rusticamente com pedaço de pau e pedaço de pedra. Sal e saga daquela terra.

Afasta-se, recuso, porém não teimava em desbravar refúgios, que com vara curta atiçava à distância. Em  vãos vôos válidos. Rasos de profundidade rasgada à carne crua.

E por ser só, já se sabia de antemão que era não mais que uma opção. Como conviver lá em baixo, em meio às angústias mundanas? Como compartilhar da dor impunemente? Como não se sentir responsável? Como não se sentir impotente?

Lá do alto ele estava mais perto do céu e as cores de baixo não passavam de meros borrões desfocados. Talvez opacos, talvez inúteis.

Sendo assim não é qualquer pieguice que sobressai aos olhos.
Sentado a observar em suspensão sentia medo, dissabor, a boca seca, a mão fria e uma fome devassadora.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Papoula



Papoula selvagem 
desabrocha sua cabrocha,
rasga sua chita,
despede sua pétala
destituída e emancipada
Vaga à porejar

Roda sua saia
inserve sua sopa
no suave cortejo
de silente jubilar

maboungas mortíferas
farejam faquires falsos
fomentam fugidios fados
fermentam sua bile pro molho do jantar.

treme o timo tinto 
trava no entrave trapézio
a parca parcimônia
de prantos tantos a destilar

à Túpac  Amaru
faz sua reverência
 oferenda suprema
serve vivo à pulsar

Serva de um santuário salso
sufoca sua sina
ensina seu fardo
enfadonho traçar.

Desvio de doravante



Em arribação
segue a sanga
sabatina de auto-berlinda
desassossegada desbaratina
em debandada delirante
Desvio de doravante.

segunda-feira, 23 de maio de 2011


"O passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som."
                                                                                                                             W.B

sábado, 21 de maio de 2011



"Assim que você confiar em si mesmo, saberá como viver."  

                                                                   (Goethe)


"Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui.Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lagoa a lua toda brilha, porque alta vive"

Fernando Pessoa – Ficções do Interlúdio



sexta-feira, 20 de maio de 2011

Em campos de sorgo, ao lado de búfalos









"Recomeça... se puderes,
sem angústia e sem pressa
e os passos que deres,
nesse caminho duro do futuro,
dá-os em liberdade,
enquanto não alcances
não descanses,
de nenhum fruto
queiras só metade".

                  Miguel Torga

fragmentado instante

Numa manhã qualquer, de uma sexta-feira qualquer, depois de ter revirado o mundo...
A televisão acessório chama a atenção, uma frase simplesmente ecoou mais alto, se fez ouvida em meio ao emaranhado de informações. Nas teias cotidianas....
Uma professora de dança de salão ensinando o tango instantâneo:
“_Excelência se reconhece por repetição, repetição, repetição, repetição!”
Sabe quando a atenção está fragmentada absorta em mil direções opostas, contrastantes, concordantes, tudo ao mesmo tempo e mais um pouco?!
Os sons também se apresentam fragmentados, algo da rua como o ritmo frenético do trânsito caótico, os ônibus rangendo seus cardãs, as buzinas agudas agonizantes, o asfalto escaldante, os seres errantes, as ratas das ruas, seus rótulos deturpados, notáveis cacofonias.
A fumaça à meia luz, as partículas de poeira, as roupas e objetos displicentemente posicionados formavam a cena.
Nada além de rotina, romaria incansável, melancolia.
Agonia, vertigem, rodopia.
Angústia de incerteza.

Citações sobre "comida"




"Todos os homens se nutrem mas poucos sabem distinguir os sabores."
           Confúcio (filósofo Chinês, C. 551- 479 ac), O meio justo, 4.


" A sociedade é composta de duas grandes classes: aqueles que tem mais refeições do que apetite, e aqueles que tem mais apetite do que refeições."
          N. De Chamfort (escritor francês, c. 1740-1794)
                 Máximas e pensamentos, III, 194.


"O homem come, apenas o homem inteligente sabe comer."
        A. Brillat- Savarin (escritor francês, 1755- 1826)
                La physiologie du goût.


“ O Universo nada significa sem a vida, e tudo o que vive come.”
                    A.  Brillat-Savarin

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Aquele outro não via...


"Aquele outro não via minha muita amplidão
Nada lhe bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)

Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?"

  
                     Hilda Hilst

"Para escrever um único verso, é preciso ter visto muitas cidades, homens e coisas, é preciso conhecer os animais, é preciso sentir como voam os pássaros e saber que movimento fazem as florzinhas quando se abrem de manhã."                                                                                      Rilke


[ Rainer Maria Rilke, Les cahiers de Malte Laurids Brigge ]

Beirute- Elephant Gun




Elephant Gun

If I was young, I'd flee this town
I'd bury my dreams underground
As did I, we drink to die, we drink tonight


Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around


Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down


Let the seasons begin - it rolls right on
Let the seasons begin - take the big king down


And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the night


And it rips through the silence of our camp at night
And it rips through the silence, all that is left is all
That I hide







quarta-feira, 18 de maio de 2011

PASSEIO


1
Não haverá um equívoco em tudo isso?
O que será em verdade transparência
Se a matéria que vê, é opacidade?
Nesta manhã sou e não sou minha paisagem
Terra e claridade se confundem
E o que me vê
Não sabe de si mesmo a sua imagem.


E me sabendo quilha castigada de partidas
Não quis meu canto em leveza e brando
Mas para o vosso ouvido o verso breve
Persistirá cantando.
Leve, é o que diz a boca diminuta e douta.


Serão leves as límpidas paredes
Onde descansareis vosso caminho?
Terra, tua leveza em minha mão.
Um aroma te suspende e vens a mim
Numas manhãs à procura de águas.
E ainda revestida de vaidades, te sei.
Eu mesma, sendo argila escolhida
Revesti de sombra a minha verdade.


2
Lenta será minha voz e sua longa canção.
Lentamente se adensam essas águas
Porque um todo de terra em mim se alarga.


E de constância e singeleza tanta,
Meus mortos hoje sobre um chão de linhos
Por algum tempo guardarão meu ritmo
Nos ouvidos da terra. De granito.
Pude aclarar a sombras nos oiteiros
E aquecer num sopro o vento da tarde.
Mas não vereis ainda meus prodígios
Porque haverá lideiras neste outono
E vossos olhos estarão por lá
Desocupados do sono, extremados
Para uma só visão num só caminho.


3
Quisera descansar as mãos
Como se houvesse outro destino em mim.
E castigar as falas, alimárias
Vindas de um outro mundo que não sei.
Fazê-las repetir suas longas árias
Até que a morte silencie as mandíbulas
Claras.


4
Caminho. E a verdade
É que vejo alguns portais
E entre as grades uns pássaros a leste.
Não sabem de seus passos os meus pés
Nem de mim mesma sei


Mas tantas timidizes se esvaíram
E este meu corpo agora não as tem.


E atravessando os mármores e os muros
Como se fossem mais muros de vento,
Passeio nos jazigos
E um cordeiro de pedra eu apascento.


5
Também nos claros, na manhã mais plena,
A retina ferida nesse vôo que passa além do verde,
É sempre a morte o sopro de um poema.
Entre uma pausa e outra ela ressurge
Ilharga de sol. Ah, diante do efêmero
Hei de cantar mais alto, sem o freio
De uns cantares longínquos, assustados.


6
As aves eram brancas e corriam na brancura das lajes.
As aves eram tantas e sabiam do seu corpo de ave.


Esguias e vorazes consumiam
Os corpos que eram aves menos ágeis.
E as garras assombradas dividiam
As espessuras ínfimas da carne.


Na plumagem umas gotas de sangue
Dos corpos devorados se entrevia.
Mas da vida e do sangue não sabiam
As aves que eram tantas sobre as lajes.


O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.


A face do meu Deus iluminou-se.
E sendo Um só, é múltiplo Seu rosto.
É uno em seus opostos, água e fogo
Têm a mesma matéria noutro rosto.
Alegrou-Se meu Deus.
Dessa morte que é vida, Se contenta.


7
O Deus de que vos falo
Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe
Da grandeza do homem
(Da vileza também)
E no tempo contempla
O ser que assim se fez.


É difícil ser Deus
As coisas O comovem.
Mas não da comoção
Que vos é familiar:
Essa que vos inunda os olhos
Quando o canto da infância
Se refaz.


A comoção divina
Não tem nome.
O nascimento, a morte
O martírio do herói
Vossas crianças claras
Sob a laje,
Vossas mães
No vazio das horas.


E podereis amá-lo
Se eu vos disser serena
Sem cuidados,
Que a comoção divina
Contemplando se faz?


8
Vereis um outro tempo estranho ao vosso.
Tempo presente mas sempre um tempo só,
Onipresente.
A dimensão das ilhas eu não sei.
Será como pensardes ou como é
Vossa própria e secreta dimensão.
Às vezes pareciam infinitas
De larguras extremas e tão longas
Que o olhar desistia do horizonte
E sondava: ervas, água
Minúcias onde o tato se alegrava
Insetos, transparências delicadas
Tentando o vôo quase sempre incerto.


O peito era maior que o céu aberto.
Parávamos. E sabeis
Que o que contenta mais o peito inquieto
É olhar ao redor como quem vê
E silenciar também como quem ama.


Éramos muitos? Ah, sim
Eram muitos em mim.
O perigo maior de conviver era o perigo de todos.
Nosso Deus era um Todo inalterável, mudo
E mesmo assim mantido. Nosso pranto
Continuadamente sem ouvido
Porque não é missão de divindade
Testemunharo pranto e o regozijo.


O que esperais de um Deus?
Ele espera dos homens que O mantenham vivo.


E os verdes, os azuis, o chumbo delicado
De umas tardes, a pureza das aves
Os peixes de verniz
Na abertura mais funda de umas águas.


(...)
                  
                                                    Hilda Hilst




[Exercícios para uma trajetória poética do ser (1963-1966)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]