sábado, 16 de abril de 2011


Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.


Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.


Me confesso
possesso das virtudes teologais,
que são três,e dos pecados mortais,
que são sete, quando a terra não repete
que são mais.


Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças
do mesmo todo.


Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.


Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.


Me confesso de Abel e de Caim.


Me confesso de ser homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.


Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

Miguel Torga

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