sexta-feira, 25 de março de 2011

O Sono das Águas


"Há uma hora certa, 
no meio da noite, 
uma hora morta, 
em que a água dorme. 
Todas as águas dormem: 
no rio, 
na lagoa, 
no açude, 
no brejão, 
nos olhos d’água, 
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado, 
na barranca, 
a noite inteira, 
há de ouvir a cachoeira 
parar a queda e o choro, 
que a água foi dormir…
Águas claras, 
águas barrentas, 
sonolentas, 
todas vão cochilar.
Dormem gotas, 
caudais, 
seivas das plantas, 
fios brancos, 
torrentes. 
O orvalho sonha nas placas das folhagens 
e adormece.
Até a água fervida, 
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, 
nessa hora de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando, 
e chorando, a noite toda, 
porque a água dos olhos 
Essa… nunca tem sono…"
                               Guimarães Rosa

(“O Sono das Águas”. João Guimarães Rosa, 1908-1967. In: Magma. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1997, pp. 66-67)

Um comentário: