terça-feira, 29 de março de 2011



Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim…
De pensada, mal vivida…
Triste de quem pensa assim!
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter…
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim; ‘stou em mim dividido.
Se ao menos chovesse menos!
PESSOA, Fernando. Poesia: 1931-1935. São Paulo: Cia das Letras, 2009. 

Espanta-te

É que por ora
Passam à largo do sentimento,
Sanguessugas do lago negro,
que acostumaram-te a te tirar proveito

Tomaram-te de início num sorvo, num trago, num gole
 todo alento de encantamento

te despiram , te cuspiram,
 te enfeitaram, te veneraram
todas suas pistas, sua iscas,
em milícias mestiças

te possuíram, te ignoraram,
 te enfeitiçaram em puro desdém,

definham poréns e alternativas,
ígneos aproximados

Venenoso sarcasmo, desde seco à lentas doses diárias de companhia
de próximos exageros à prósperas exigências -  cenas de afetação

cospem fogo,
malabaristas que só,
 da ilusão.


segunda-feira, 28 de março de 2011


vapor de eucalipto previsto
e um local úmido para passar as horas,
se fechares em concha
das formas à ruptura
das taças ao tropeço
das traças à mim mesma
sempre há novo toque
sem torque nem eixo

encontrei perdida numa pasta esquecida


Despertar de náusea forte,

momentânea de

dentro pra fora e

de dentro pra dentro

também
aperto no timo
apatia,
melancolia

A gente inventa, direciona
Mau augúrio, tormentas
Saí de fininho

Devo voltar a me refugiar na coletividade?

...essa individualidade está demasiada esquiva.


                                                                                                                               Flávia Amaro 


Tarde triste e silenciosa
de vila de beira mar:
uma tarde cor-de-rosa
que vai morrendo em luar...

Ao longe, a várzea cintila
de uns restos de sol poente;
mas, por sobre toda a vila
-- do morro a que fica rente --
desce uma sombra tranqüila
e anoitece lentamente.

Nem rumor da natureza,
nem eco de voz humana
perturba a infinita calma,
a solitária vila praiana.

Nem se ouve o mar, longe, e manso!

A tudo, em redor, invade
um ar de mole descanso...
Silêncio... Imobilidade...
Como que interrompida
a correnteza da vida
fez neste ponto um remanso.


Vicente de Carvalho


domingo, 27 de março de 2011

Feira rotineira


Escrever sobre o tempo e a rotina

tem algo haver com desembaçar as lentes de um antropólogo antropófago

como bricolagem de retinas à campo introduzidas na interação primitiva no caos dos dias

Busquem a significação local nos infortúnios triviais, já diria

Encontre beleza nas virgens desfilando por  passarelas opacas

Na feria de meretrizes desgastadas pelas solas dos pneus

No hospício junto aos encarcerados do lado de fora

Juntos as freiras em ruas tumultuadas agonizantes

Entre cafés de pseudo intelectuais em jornais diários

No apelo do homem no sótão tocando seu órgão seco

No soco do estômago dos famintos e famigerados

Nas lustrosas madames e seus cachorrinhos personalizados

Nas tocas  urbanas escuras, nos ocos da madrugada

No desfiladeiro das travessas- viadutos

Na intervenção colorida nas ruas

No silêncio das senhoras casadas

No tocante à enxada do lavrador 

No edifício vertical- vitral

no ritual, batuque do ritmo

nas festas de romaria

folguedos

água de flor



Das Vantagens de Ser Bobo





 "Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!"
                                                                                  Clarice Lispector


águas sutis e suas cores nos meus olhos


água de piscina, água de corredeira

Imagens captadas em 25/03/2011 num clube tradicional da cidade de Uberlândia-MG.




raias


céu


finda a sessão "tudo azul"











sábado, 26 de março de 2011

O silêncio dos livros

Caros leitores,

Sugiro uma visita no blog: www.osilenciodoslivros.blogspot.com para uma viagem ilustrativa no universo dos livros.
Trata-se de uma compilação de imagens relativas aos livros e ao hábito da leitura. Um verdadeiro deleite para os olhos.
Compartilho algumas imagens por aqui para dar um gostinho, mas você poderá conferir muito mais no próprio blog.
Vale a pena!

 L’étoile de mer (Man Ray) ] 1928

André Letria

 L’étoile de mer (Man Ray) ] 1928

[ La Lectrice (Michel Deville) ] 1988

Honoré Daumier [ Don Quixote Reading ] 1865/70

Franco Matticchio

Andre Fontaine [ Girl Reading by Candlelight ] 1850








sexta-feira, 25 de março de 2011

Ontem assisti " A Outra" do Woody Allen,
me comovi com a constatação de que inevitavelmente mais cedo ou mais tarde se acorda, se contesta, sempre se vive contestando.
Quando é a hora certa?

"ê sum Paulo"


Estava sozinha na cidade grande, caminhava dispersa por direções horizontais e verticais
Me forcei a estar lá, naquele caos, naquele momento
ser mais uma na multidão frenética,

o coração batendo acelerado
pupilas dilatadas de tensionamento,

um empurrão,
atenção!

Como escolhem estar aqui?!
Formiguinhas no emaranhado submerso dos túneis
São Paulo no metrô me intrigou...

A terra da garoa comove pela dimensão exorbitante
seu fluxo
seu ritmo
seu tônus

Troquei olhares com dezenas de pessoas no anonimato
Elas me observavam diametralmente
à cada ruga de expressão
Impressão minha?

Um fragmento de segundo e minha identidade se fixa perecível
Vários rostos, memórias e histórias ao longo de um dia
boiada dando cabeçada
todos muito, muito próximos.

Como posso sentir um falo sem conhecer seu tato?

distância inexorável

e no tocante ao corpo desconhecido,
se perdeu no tráfego
à passos largos 

O Sono das Águas


"Há uma hora certa, 
no meio da noite, 
uma hora morta, 
em que a água dorme. 
Todas as águas dormem: 
no rio, 
na lagoa, 
no açude, 
no brejão, 
nos olhos d’água, 
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado, 
na barranca, 
a noite inteira, 
há de ouvir a cachoeira 
parar a queda e o choro, 
que a água foi dormir…
Águas claras, 
águas barrentas, 
sonolentas, 
todas vão cochilar.
Dormem gotas, 
caudais, 
seivas das plantas, 
fios brancos, 
torrentes. 
O orvalho sonha nas placas das folhagens 
e adormece.
Até a água fervida, 
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, 
nessa hora de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando, 
e chorando, a noite toda, 
porque a água dos olhos 
Essa… nunca tem sono…"
                               Guimarães Rosa

(“O Sono das Águas”. João Guimarães Rosa, 1908-1967. In: Magma. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1997, pp. 66-67)

quinta-feira, 24 de março de 2011

O título era mais sugestivo que o conteúdo - expressões de subjetividade multifacetada.


Queria escrever sem intenção prévia de postar, mas com o hábito de cultivar um blog as idéias escritas de uma forma quase que automática acabam sendo por mim postadas antes mesmo de serem devidamente pormenorizadas.
Numa abstração me remeto a um tempo sem internet, tempo em que eu quase nem me lembro mais, justo eu que testemunhei as mudanças, que sou da geração dos primórdios da popularização dessa transformação interligada mundialmente, eu que tive amigos de Cairo e no Moçambique. conectada desde 98. (rs)
Antes disso os escritos podiam nunca sair de esboços manuscritos e que de uma forma ou de outra atendiam a parâmetros pré-estabelecidos. Os versos ficavam contidos?
Hoje num tempo dinâmico, o que não necessariamente é uma qualidade, a informação é inexaurível.
 Eu mesmo muitas vezes posto por postar - interações "googadas", dos idos mircICQ para os blogs e facebooks à perder.
E neste contexto, o que escrevo salvo raras exceções não mais me pertence, é do mundo, é poeira perene de ciber significações, é projeção virtual, escapa à realidade de fato, fatídica, esquiva.E isso é assustador!
 Dos diários evoluí-se (ou regredí-se) para um blog visitado por pessoas de países que não falam minha língua, como exemplo: Hungria, Eslováquia e/ou Turquia.
 Os blogs tem seus próprios formatos e seguem formulando-se por aí.
 Nessas proporções deveria analisar melhor, talvez eu não gostasse de me projetar assim, tão parca, tão aberta, tão esboço de mim mesma, tão ingênua e desnuda.
Em primeiro lugar não consigo sequer descrever este blog, não posso chamar o que faço de poesia, talvez sejam mesmo alguns versos sem nexo para além da rima e da pura e simples abstração instantânea.
 Na verdade há de se averiguar de perto, e estou aberta à interações.
Mas não se iluda caro leitor, tudo não passa de uma projeção, que uma vez projetada em tela, passa a não mais me pertencer.
Pertence à esse turbilhão de informações conectadas.
Sem mais, me apresento humildemente mineira, com a melhor das intenções.
Na consciência inevitável que posto mesmo sem deduzir a dimensão, mesmo sem saber o real motivo da projeção, às vezes oscilo na medida da exposição.
Na verdade queria mesmo era ser ainda mais explícita, falar sobre tudo que me intriga.
Vontade de dar a cara à tapa como atitude altruísta. Servir como boi de piranha.
 _ Vamos, mirem-se nos meus frugais exemplos e aliviem-se.
 Deságüem um pouco de previsibilidade perecível no transcorrer da retina na tela.
 Todos sentem, uns mais, outros menos, uns nos intervalos de suas ocupações, outros nas ocupações de seus intervalos.



Entre mangas, macacos, malandros, mulatas e molambos





Mulango tango
Mamulengo mengo
abacatê tanga
coco terêrê

 carnaval
Malemolência
marchinhas

Melância/Manga mole
Pina colada- dinha

Mina de minas
lá perto do planalto central
truculência de verdes matas
Nas estradas, sempre estradas


Mundo vasto mundo de Raimundos
Taperinhas à beira mar na Bahia
Pequeninas construções coloridas
Lavadeiras de ladrilhos brilhantes na rua das Maria- Amélias da Silva

............................................
No BRASIL

tem pra mim
trajetos de percorrer
Velocidade de lugares
Rasgando mapas --  agora zona úmida
                                Mata Atlântica


em TRINDADE-RJ

magnetismo da ponta
 um lugar exuberante por natureza e por energia mística- holística.
Conhecendo pessoas e em abstrações pessoais de uma onda coletiva pude compreender uma junção de passado/presente/futuro em fragmentos de segundos dispersos no embalo do colo de Iemanjá.
Algumas simbolizações reveladas em sonhos complexos me foram permitidas no vai e vem das ondas, no doce balanço suave, à esquerda os brócolis plantados com afinco, à direita uma ilhota pedregulho, e à frente mar avante marinheiro.
Espécie de projeção perispírito, como uma antes visão invertida deja vu.
Primeiro anos à frente: eu biquíni crochê listrado, morena com colar coral, snorks samoas e flores azuis de maio.
sensações sinestesias
Sustentação fraternal
Reviravoltas e visões para além
Ilhas ao norte de mim
Barulho da concha espiral
Puro vislumbre astral,
quando em encontros paulistas: Tremembé-Sorocaba as cidades e os nativos caiçaras da região.
Todos sob o sol fluminense e eu em minha psicografia selvagem de projeção. Completamente absorta depois da interação...meu momento vislumbrando
Povos do mar
Legendas xamânicas
escaravelhos egípcios
mar morno
movimento das ondas
à cada mergulho uma imagem

segunda-feira, 21 de março de 2011

Café da manhã na Mata Atlântica



O cuscuz da Fernanda


Esse cuscuz merece um post por várias razões:

1º Não é qualquer cuscuz, é o cuscuz da Fernanda, minha graciosa irmã que finalmente demonstrou um talento notório na cozinha. Ela geralmente é muito boa em líquidos, sucos e afins, mas o cuscuz foi novidade.
2º É o famoso cuscuz baiano (nordestino), que eles consomem diariamente no café da manhã. Acompanha bem com a manteiga de garrafa, mas como não é usual em nossa região, servimos com a manteiga convencional mesmo.
3º É super nutritivo e uma ótima alternativa à farinha de trigo branca utilizada na maioria dos pães comercializados, sobretudo em lugares mais ermos.
3º Estávamos em Ubatumirim, no meio da mata Atlântica.

No mais segue a receita, é super fácil de fazer:
Você precisará de uma cuscuzeira, mas na falta dá para improvisar com um pano de prato limpo. Como foi o nosso caso.


Cuscuz nordestino:

Ingredientes:

- 200g de farinha de milho em flocos pré-cozida;
- 1 copo americano ( 150ml) de água;
- sal à gosto.

Modo de fazer:

Numa vasilha hidrate os flocos de milho com água, adicione sal e mexa bem.
Em seguida coloque a mistura em um cuscuzeiro, assim que a água ferver, desligue o fogo e deixe mais 3 minutos no vapor.
Na improvisação, você coloca sobre uma panela com água fervendo o prato com o cuscuz amarrado de cabeça para baixo. Aguarde os mesmos 3 minutos e pronto, só alegria.
Vale a pena tentar! Depois me contem como se saíram, e qualquer dúvida, estou à disposição.





Trajeto

desbravando o litoral paulista
algumas imagens





















quinta-feira, 17 de março de 2011